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Qualis Capes Quadriênio 2017-2020 - B1 em medicina I, II e III, saúde coletiva
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EDITORIAL


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Rastreamento do Câncer de Canal Anal: Integração de Evidências

Sandra de Andrade Heraclio1; Lais Lima Bomfim de Oliveira2; Alex Sandro Rolland Souza2,3,4

DOI: 10.1590/1806-9304202620250342 e20250342

O rastreio do câncer de canal anal evoluiu de hipótese controversa para prática focada em grupos de alto risco na última década. O ensaio Anal Cancer/ High-Grade Squamous Intraepithelial (HSIL) Outcomes Research Study (ANCHOR study) demonstrou que tratar a lesão intraepitelial de alto grau anal (LIEAG) reduz em mais de 50% a incidência de câncer anal, consolidando a justificativa para programas estruturados.1 Em 2024, o consenso da International Anal Neoplasia Society (IANS) publicou o primeiro guideline global com recomendações explícitas de quem, quando e como rastrear o câncer anal.2 Posteriormente, outras diretrizes clínicas correlatas da American Society for Colposcopy and Cervical Pathology/ National Institutes of Health (ASCCP/ NIH) e estudos de desempenho apoiaram o uso de citologia anal, teste de human papillomavirus (HPV) de alto risco com genotipagem (especialmente o HPV 16) e anuscopia de alta resolução (AAR) na confirmação diagnóstica, além do exame digital anorretal [Digital Ano-Rectal Examination (DARE)], como medida simples e de baixo custo.3-5

Do ponto de vista biológico, a história natural do câncer anal guarda paralelos com a do câncer de colo uterino: o HPV oncogênico integra-se à célula e promove superexpressão das oncoproteinas E6/E7, favorecendo transformação celular e progressão de lesões precursoras até carcinoma escamoso — subtipo predominante (85%) — coexistindo com menores proporções, o adenocarcinoma, melanoma, linfoma, tumor estromal gastrointestinal (GIST) e tumores neuroendócrinos.6,7

A incidência global permanece menor que 2/100.000 pessoas-ano, mas em ascensão em vários países e faixas etárias.8 No Brasil, a magnitude exata é incerta por agregação do ânus junto aos tumores colorretais nos registros de informação, sugerindo subestimação. Em estudo realizado no nordeste brasileiro observou-se uma prevalência de 12% de câncer anal em mulheres com neoplasia cervical.9 Ressalta-se ainda, que há evidências de tendência de mortalidade em crescimento e subnotificação por codificação e acesso desigual.10

Os principais fatores de risco para câncer de canal anal, independente do gênero, incluem idade maior que 40 anos, tabagismo, imunossupressão (incluindo o HIV e transplantes), práticas sexuais com maior exposição mucosa e verrugas anogenitais. Entre as mulheres, incluem história de HPV cervical de alto risco persistente, LIEAG/câncer cervical e vulvar.11,12

O consenso IANS categoriza grupos de risco recomendando o rastreamento do câncer anal em mulheres trans HIV positivas com idade igual ou maior que 35 anos; em homens que fazem sexo com homens (HSH) HIV positivo ou negativo e mulheres HIV positivas com idade igual ou maior que 45 anos; em transplantados a partir de dez anos do transplante; e história de LIEAG/câncer vulvar após um ano do diagnóstico.2

As melhores práticas para rastreio do câncer de canal anal variam dependendo do ambiente de saúde, população alvo e dos recursos disponíveis. O DARE é útil para detecção de massas/tumores precoces, porém apresenta baixa sensibilidade para LIEAG, mas alta especificidade quando realizado por examinadores treinados.13 A citologia anal é a técnica mais difundida, com alta sensibilidade entre 70% e 90% e moderada especificidade, entre 40% e 65% em populações de alto risco. Tanto a citologia convencional como a citologia em base líquida (LBC) são empregadas no rastreio das lesões precursoras anais. Entretanto, a LBC reduz amostras insatisfatórias e permite realização do teste de reação em cadeia da polimerase (PCR) para HPV e outros biomarcadores.5

A PCR para HPV de alto risco com genotipagem (especialmente o HPV 16) é a que apresenta a maior sensibilidade e melhor estratificação de risco e quando associada a imunohistoquímica com p16/Ki-67 podem aumentar especificidade.14 Destaca-se que a auto-coleta anal para HPV surge como alternativa viável para ampliar cobertura em pessoas resistentes à realização de exames.15 A AAR com biópsia é considerada padrão-ouro diagnóstico para LIEAG anal, entretanto requer expertise e estrutura ambulatorial adequada.2

O prognóstico do câncer anal é geralmente bom e melhora com a detecção precoce, com uma taxa de sobrevida em cinco anos de aproximadamente 70% no geral, sendo maior para a doença localizada. No entanto, o estágio em que o câncer é diagnosticado é o fator mais significativo, sendo a sobrevida menor, se compromete linfonodos próximos (58% a 61%) ou órgãos distantes (30% a 36%).

Concluindo, em cenários com AAR limitada, recomenda-se protocolo faseado: inicialmente incorporar DARE na rotina, adotar citologia e/ou HPV de alto risco com genotipagem para HPV 16, conforme capacidade laboratorial, e organizar fluxos de referência para AAR. A formulação de políticas exige reconhecer o subregistro, aprimorar os sistemas de vigilância e registro de informação e priorizar a qualificação profissional.

Referências

1. Palefsky JM, Lee JY, Jay N, Goldstone SE, Darragh TM, Dunlevy HA, et al. Treatment of anal high-grade squamous intraepithelial lesions to prevent anal cancer. N Engl J Med. 2022; 386 (24): 2273-82.

2. Stier EA, Clarke MA, Deshmukh AA, Chiao EY, Saraiya M, Stoler MH, et al. International Anal Neoplasia Society's consensus guidelines for anal cancer screening. Int J Cancer. 2024; 154 (10): 1694-1702.

3. American Society for Colposcopy and Cervical Pathology (ASCCP). Practice Advisory: Anal Cancer Screening; 2024. [Internet]. [acesso em 2025 Set 24]. Disponível em: https://www.asccp.org/clinical-guidance-documents/practice-advisories

4. National Institutes of Health (NIH). Guidelines for the Prevention and Treatment of Opportunistic Infections in Adults and Adolescents with HIV: Human Papillomavirus Disease. 2024. [acesso em 2025 Set 24]. Disponível em: https://clinicalinfo.hiv.gov/sites/default/files/guidelines/archive/adult-adolescent-oi-2024-10-08.pdf

5. Gaisa M, Goldstone SE, Goldstone RN, Jay N, Berry-Lawhorn JM, Darragh TM, et al. Performance of screening tests for anal cancer precursors in people with HIV. Clin Infect Dis. 2025; 81 (2): 345-51.

6. Doorslaer K van, Li Z, Xirasagar S, Maes P, Kaminsky D, Liou D, et al. The Papillomavirus Episteme: a major update to the papillomavirus sequence database. Nucleic Acids Res. 2017; 45 (D1): D499-506.

7. de Martel C, Georges D, Bray F, Ferlay J, Clifford GM. Global burden of cancer attributable to infections in 2018: a worldwide incidence analysis. Lancet Glob Health. 2020; 8 (2): e180-90.

8. Islami F, Ferlay J, Lortet-Tieulent J, Bray F, Jemal A. International trends in anal cancer incidence rates. Int J Epidemiol. 2017; 46 (3): 924-9.

9. Almeida GF, Heráclio S, Souza ASR, Amorim MM. Profile of women with anal neoplasia associated with cervical neoplasia receiving care at a tertiary healthcare facility in northeastern Brazil. J Coloproctol (Rio J). 2019; 39 (4): 297–302.

10. Paixão WHP, Mendes JLQ, Silva DS, Souza RGML, Araujo ROC, Meira KC, et al. Survival and prognostic of anal cancer: a study based on data from the hospital-based cancer registry of a high-complexity oncology care center. ABCD Arq Bras Cir Dig. 2024; 37: e1830.

11. Joseph DA, Miller JW, Wu X, Chen VW, Morris CR, Goodman MT, et al. Understanding the burden of HPV-associated anal cancers in the US. Cancer. 2008; 113 (Suppl. 10): 2892-900.

12. D'Souza G, Wentz A, Wiley D, Shah N, Gillison ML, Kojic EM, et al. Anal HPV and AIN in HIV-infected women. J Acquir Immune Defic Syndr. 2018; 79 (5): 574-81.

13. Nyitray AG, D'Souza G, Stier EA, Clifford G, Chiao EY. The Utility of Digital Anal Rectal Examinations in a Public Health Screening Program for Anal Cancer. J Low Genit Tract Dis. 2020;24 (2): 192-6.

14. Chen CC, Hsueh KC, Shen CH, Bai CH, Wu CC, Wang YH. The diagnostic value of p16/Ki-67 dual immunostaining for anal intraepithelial neoplasia: a meta-analysis. Am J Mens Health. 2020; 14 (2): 1557988320977630.

15. Nyitray AG, Hernandez AL, Salmeron J, Abrahamsen M, Abrahamsen M, Wilson B, et al. Home-based self-sampling vs clinician sampling for anal precancer screening: The Prevent Anal Cancer Self-Swab Study. Int J Cancer. 2023; 153 (4): 843-53.

À convite da Editora Chefe: Lygia Vanderlei

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